A eu do futuro chegou. Te escrevo da nossa própria casa, aos 30. Pensei em nós tantas vezes. Você daí, jurando ter tanto domínio do próprio destino; e eu daqui, voltando pra te dizer que a gente precisa aprender a deixar ele tomar conta de si mesmo vez ou outra (ou muitas vezes, mas não quero te assustar). Mas não nego: em partes, controlamos algumas coisas. Essas palavras são resultado das escolhas que fizemos; dos caminhos que decidimos percorrer; e daquilo que não abrimos mão ou cedemos. Por outro lado, não calculamos que entre uma escolha e outra, teríamos que lidar com a dor ou com conquistas que ousariam influenciar - perdidamente - o nosso olhar. Viramos adultas então. Você entenderia exatamente o tom de voz em que te escrevo. As nuances de cada palavra. E mesmo que lhe custasse um tempo, você entenderia a intensidade de como é viver dentro de nós agora... um vulcão que fora ativo enquanto estava aí e agora vê vida em estar adormecido. É bom descobrir que há beleza no morno (essa talvez você nunca entenderia).
Cá estou, redescobrindo que é dentro de mim que eu me deito e que eu me levanto. É em mim que os sonhos brotam e morrem; que os medos surgem e, lá mesmo, precisam ser domados para não me corroer por inteiro. Talvez, por tanto tempo, acreditamos que era no outro que morava alguma resposta. Ou que no outro a nossa raiva era mais bonita. Em que pese ser dureza descobrir que é dentro de nós que as coisas precisam ser resolvidas, também é um alívio praquelas nossas angústias todas que nos sufocavam tanto.
De antemão, peço desculpas por aparentar, até aqui, a ideia de que tenho todas as respostas que não tínhamos. Não as tenho. Pelo contrário, novos questionamentos, ainda mais profundos, tomaram conta dos dias. Mas preferia aí - nesse tempo - nessa você. A gente conseguia questionar em tempo real, porque a vida ainda dava tréguas entre uma tarefa e outra. Crescer também ofusca um pouco a nossa habilidade de saber o que a gente está, de fato, sem entender. E aí a gente tem a sensação de não entender nada. É estranho sentir-se sufocado por não saber o que gostaria de saber. Querer respostas para perguntas que sequer conseguimos elaborar.
Embora o futuro pareça catastrófico para nós, ele é surpreendentemente belo. Dentro das sutilezas, mora a vida. E dentre angústias; emoções dúbias e muita falta de tempo, também há grandes descobertas. Realmente é um milagre fabricar vida no ventre e essa vida, ao mesmo tempo, passar a nutrir a sua por toda a eternidade. A gente tinha medo de não saber a grandeza dessa sensação, lembra? E ela é tão grande, tão imensa, que só dá pra entender se a gente parar para enxergar nas miudezas.
A gente sempre desconfiou que a gente poderia voar grande, caso a gente se dedicasse. Custou caro, mas conseguimos pagar o quanto valia... E então voamos bem alto, como sonhamos. A sensação de voar com as próprias asas é realmente libertadora, como imaginávamos.
O amor é leve, se você aprender a reconhecê-lo de perto. Tem gente de coração transparente, como águas cristalinas, mas é uma raridade - e tivemos a sorte de enxergar esse espelho de pertinho e lá fazer morada. Tem um tanto de vida em viver o nós - e não estou falando da gente.
Nós temos o direito de ser exatamente nós - e agora estou falando da gente. Por vezes perdida; por vezes um furacão; por vezes reclusa; por vezes completamente inadequada. A gente está entendendo que somos adequadas até dentro das nossas inadequações. Me custa entender, ainda, que a gente pode ser o que a gente é. Porque, devo confessar, às vezes não sabemos se realmente somos o que somos, ou se somos a projeção daquilo que nos fizeram acreditar que deveríamos ser. Seguimos sendo aquilo que é possível e descobrindo no meio do caminho que podemos ser de infinitas formas - e que precisaremos sustentar, nós mesmos, cada uma delas.